Numa semana em que o mundo da música se agitou, um dia após o lançamento do novo projeto de retorno dos Tribalistas, e um dia antes do 44º aniversário de nascimento do Hip Hop, ou seja, ontem, 10 de agosto, data que nos candomblés se celebra o culto a Kitembu, Nkise nas tradições bantus, e que nas tradições jeje-nagô assume a forma de Loko e Irôko, e que em língua corrente se chama Tempo. Não à toa, foi nesse dia que Baco Exu do Blues voltou a queimar.

Nesse contexto, desde e entre narrativas míticas, deuses, memes e expectativas que o perseguem e o alcançam quase há um ano desde o lançamento da faixa “Sulicídio”, gravada em parceria com o rapper Diomedes Chinaski, é que só agora, Baco Exu do Blues traz, ao tão criticado público do rap nacional, uma prévia de sua obra, seu primeiro disco solo, Esú que, ao que parece, vai nos apresentar uma co-extensão em linhas de continuidade e, ao mesmo tempo, respostas aos desdobramentos da faixa que lhe rendeu um algo além de algum dinheiro & views.

En Tu Mira (Interlúdio ESÚ), em pouco menos de dois minutos, Baco largou aos pés dos ouvidos ansiosos um gravíssimo “pescoção” aliado à uma veloz voadora na caixa dos peitos dos pretensos críticos, além, é claro, de mais uma inspiração fulminante para o Rap nacional.

As vozes em eco por trás da levada cadenciada, por trás do vocal que traz consigo a densa letra, que se você ainda não entendeu, tenta entrar na tensa floresta, ou se não quer entender, só não vá se perder por aí, pelo eco de desespero de um subconsciente alterado pela cana, alertado pela fama, pelo drama da cobrança, pela sede da grana, pelos questionamento da confiança, pelas dúvidas impostas pelas alianças, pelo medo da desesperança, pelo custo da fiança a ser paga para libertar o próprio espírito de algumas de suas prisões, seja a própria carne, o racismo e a alegada depressão, ou até mesmo os rótulos e tentativas de definição e enquadramento da expressão da subjetividade de um artista que, através de sua poesia, encara e coloca em xeque aquilo que não lhe apetece.

“Baco cadê o ano lírico? / e o cd do ano? / Eles tão me cobrando / Eu tô trabalhando”.

Após diss’s e ataques, após polêmicas e picuinhas que sacudiram o rap nacional e que em alguma medida ainda rolam, a cena se aqueceu de uma maneira que, de forma velada ou explícita, qualquer menção ao Exu do Blues é usada como sinônimo de um rap que não é rap, seja pela sua dicção, pelo sotaque pelo qual é acusado, entre outras alegações de outros rappers e do público, ao mesmo tempo em que é também expressão de uma metonímia do Rap BA, ainda que usada para criticar essa sobrecarga de representação sobre o rapper soteropolitano.

Por exemplo, como quando três dias atrás, no Cypher Box 13, produção do Rap Box, sob a coordenação de Léo Casa 1, na qual em um dos versos do rapper baiano Doi$ A$, representa-se bem o que se ouve no “Interlúdio”, quando o rapper do interior diz: “você tá sempre propício a ficar no vácuo / vai chupar se você achar que na Bahia só tem Baco […]”. Então, essa necessidade levantada por Baco de se livrar da expectativa que o estaria matando, o fazendo chorar e, até mesmo, pedir socorro sob forma de sua arte, revela o drama pessoal ou um possível hype, ao qual a cena responde com a emergência, no contexto baiano e nacional, de outras vozes no cenário como a figuração de nomes que vem fazendo Rap, em especial, no interior do estado.

“Se você tem nome de Deus / Por que erra tanto? / Por que eu ainda canto? / Seus irmãos estão te odiando / Sua família você tá largando / Por que grita tanto? / Deus tá dormindo / Vai acabar acordando / Por que você fala tanto de Deus? / É porque sou humano!”

Segundo o artista, “O público não entendeu”, será mesmo? Acredito que a suposta dificuldade enfrentada pelo “grande público”, seja lá como se pode definir esse contingente disforme e heterogêneo, frente ao impacto da obra que Baco vem construindo com sua trajetória, seja mais um reflexo de uma visão ainda centrada em valores culturais e referências conservadoras, do que de fato na falta de qualidade na obra do artista. A situação é tal que o resultado desse lançamento, por vir, ainda é sem dúvidas algo sem precedentes.

E agora, será este um encontro entre o ego de um Narciso e a obra de um Anti-Cristo? Uma conversa espelhada por alguém que parece fazer um sacrifício de sangrar o rap, a cena e a própria carne para que –  desse “cordeiro” imolado – se possa ser capaz de ver além da morte anunciada que quer ressuscitar pelas encruzilhadas a deidade interior em cada um de nós. Artistas e públicos. Poetas e púlpitos. A cura e o escorbuto. Uma ponte sobre o dilúvio?

“Isso é um pedido de socorro… / Você está aplaudindo / Eu tô me matando, porra! / Eu tô me matando / Você tá aplaudindo e eu tô me matando / Eu tô me matando…”

Enfim, a faixa traz à tona a recuperação do eco de Sulicídio à representação de um surto de suicídio, (ir)refletido, sem avisos em meio a crises de signos para música feita hoje na cena e sentidos em rotações e constelações crepusculares. Versos em ritmos com base na old school para compor a trilha sonora e narrativa das inúmeras formas de morte física, social, política e, no caso de Baco, a morte artística da juventude negra, mas também pela polícia nas periferias de Salvador até às mortes pelo genocídio por todo país. Baco se oferece à Morte, num réquiem.

“O flash está me cegando / O álcool está me matando / Minha raiva está me matando / Sua expectativa em mim / está me matando / Homem não chora / Foda-se / Eu tô chorando!”

Um réquiem às mortes como símbolos do “eterno retorno”, entre a chegada e a partida, entre o encontro e o desencontro, aí, como em toda parte, está “Esú”, que nas encruzilhadas aceita os sacrifícios e oferendas para nos libertar de eguns e escravos e liberar as passagens e promessas e pedidos que se encontram em contínua transmutação.

Asè e Laroyê…

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