Se 2016 foi um ano triste e cheio de baques-emocionais-causados-pela-morte-de-famosos, 2017 parece empenhado em superar seu antecessor. Mal começou o ano e um dos grupos cuja sonoridade mais me agrada acabou. Vão-se os grupos, ficam as camisetas e a obra. A dor causada pelo fim do ZRM ainda é recente e real, mas foi levemente aplacada com a apresentação deste curioso duo formado por Joe Sujera e Lucas Tristão.

Não é de hoje que o meta-rap me agrada. Desde o trampo do Lester, em 2015, corro atrás de rappers brasileiros que teçam críticas ácidas e toquem no que todos os outros se recusam a comentar — mesmo que tenham ciência disso. Em “Rap para Rappers, por exemplo, um som que representa perfeitamente o que quero dizer, o Classe Merda versa sobre incongruências comuns ao rap, como supostamente combater a discriminação enquanto discrimina homossexuais e mulheres, mantendo um alto nível técnico e de sagacidade ao longo da música.

A auto-crítica, essencial em tudo que fazemos, também marca presença no EP. Os Mc’s nunca se isentam das feridas em que tocam, o que deixa explícito que se vigiar é essencial para não cair em contradição com a ideologia que se prega. Sujera e Tristão versam em “Quem Sou Eu de maneira simultaneamente reminiscente e aspirante, num indício animador — apesar da melancolia pulsante do som — de que é só o começo dessa parceria.

Mesmo contando com apenas 4 faixas, o EP do Classe Merda cumpre com maestria a tarefa de nos apresentar o projeto e já inicia o processo de criação de um universo relacionado ao duo. A sonoridade é agradável em todas as faixas e os detalhes técnicos são mínimos e facilmente ignorados diante da visceralidade maravilhosa do trabalho. No tão chamado ano lírico, talvez o que nos falte seja ouvir um pouco de merda — bem feita — pra relaxar e, com o perdão do trocadilho, esse dois dão aula no quesito.

Nota: O Marco, manager/produtor/empresário/outras mil funções, ficou de liberar o download do EP com exclusividade pro RND, aguardem!

 

19 COMENTÁRIOS

Comments are closed.